Uma redução expressiva na mortalidade da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital do Servidor General Edson Ramalho (HSGER), que integra a rede do Governo da Paraíba – gerenciada pela Fundação Paraibana de Gestão em Saúde (PB Saúde) em João Pessoa – tem chamado a atenção para um cuidado muitas vezes invisível, mas decisivo: a saúde bucal. No primeiro bimestre de 2025, a taxa de mortalidade na UTI era de 34,78%. No mesmo período de 2026, o índice caiu para 13,89% – uma redução de 23,89 pontos percentuais.
Entre os fatores que contribuíram para esse resultado está a atuação integrada da odontologia hospitalar, diretamente ligada à prevenção de infecções e à segurança do paciente. Dentro da rotina hospitalar, especialmente em ambientes críticos como a UTI, o cuidado com a boca deixou de ser apenas um procedimento básico e passou a ser uma estratégia assistencial.
A lembrança do Dia Mundial da Saúde Bucal, celebrado nesta sexta-feira (20), reforça a importância de um cuidado que, no Hospital Edson Ramalho, já faz parte da rotina assistencial e impacta diretamente na sobrevivência dos pacientes. Mais do que uma data simbólica, o momento chama atenção para a necessidade de incorporar a saúde bucal como estratégia permanente de prevenção de infecções – especialmente em ambientes críticos como a UTI, onde uma boca sem cuidados pode representar riscos graves e até fatais.
A coordenadora de Enfermagem da UTI e da semi-intensiva, Othilia Maria, destaca que a presença da odontologia tem impacto direto nos desfechos clínicos. “Dentro da UTI, a odontologia tem um papel essencial. O cuidado com a saúde bucal vai muito além da higiene, ele é uma estratégia direta de segurança do paciente. Infecções como a pneumonia associada à ventilação mecânica e a sepse estão entre as principais causas de piora clínica e óbito em pacientes críticos – e muitas delas têm origem na cavidade oral. Com a atuação da equipe de Odontologia, conseguimos reduzir a carga bacteriana, prevenir infecções e melhorar a evolução clínica dos pacientes”, afirmou.
Boca: porta de entrada de infecções
A explicação está no próprio funcionamento do organismo. Em pessoas saudáveis, mecanismos naturais – como o muco e os cílios do epitélio do sistema respiratório – ajudam a filtrar impurezas e microrganismos. Já em pacientes sob ventilação mecânica, esse sistema de defesa é interrompido pelo tubo orotraqueal.
Nesse cenário, a boca se torna uma das principais portas de entrada de vírus e bactérias. Se houver acúmulo de biofilme dental (placa bacteriana), esses microrganismos podem ser aspirados para os pulmões, aumentando significativamente o risco de pneumonia hospitalar – uma das infecções mais comuns e perigosas em UTIs.
Muito além da limpeza dos dentes
Engana-se quem pensa que o atendimento odontológico hospitalar se resume à limpeza da boca. A responsável técnica da Odontologia do HSGER, dra. Andreia Medeiros, explica que o cuidado odontológico é amplo e integrado à saúde geral do paciente.
“Após um período de internação no ambiente hospitalar, a microbiota bucal muda e as bactérias se tornam mais patogênicas, com maior capacidade de causar doenças. No paciente de UTI, esse risco é ainda maior pela dificuldade de controle de biofilme da boca e do tubo e pela baixa imunidade do paciente. Se o controle de biofilme bucal não for feito de maneira adequada, o risco de desenvolver pneumonia é altíssimo”, alerta.
Ela destaca que a avaliação odontológica inclui desde a escuta qualificada do paciente (se consciente e orientado) até a análise de tecidos moles, dentes, gengivas e da produção salivar. “Nós investigamos a presença de lesões orais [traumáticas, manifestações bucais, infecciosas ou neoplásicas], focos de infecção aguda, cárie dentária, doenças periodontais, dentes com mobilidade com risco de aspiração, dentes fraturados, sangramentos, presença de próteses dentárias e sinais que podem indicar doenças sistêmicas. A boca pode revelar muito sobre a saúde do paciente”, explica.
Segundo Andreia, condições como diabetes podem se manifestar na cavidade oral com sintomas como sensação de boca seca, maior incidência de infecções oportunistas, como candidíase oral, e doença periodontal mais avançada. Já pacientes com problemas renais ou hepáticos podem apresentar aumento do volume da língua, sangramentos gengivais espontâneos, ulcerações e alterações no hálito. Em pacientes oncológicos, especialmente em neoplasias que atingem a medula óssea, são comuns úlceras, inflamações e sangramentos gengivais.
“A ausência desse diagnóstico e cuidado odontológico pode comprometer a avaliação e recuperação. Um paciente com dor, infecção ou lesão na cavidade bucal pode ter dificuldade para se alimentar, piora do quadro clínico e maior risco de infecções sistêmicas”, reforça.
Trabalho conjunto salva vidas -No HSGER, o atendimento odontológico é realizado diariamente, com busca ativa nos setores de pacientes críticos, como a UTI e a semi-intensiva. Em 2025, a equipe realizou 16.196 procedimentos e atendeu 4.219 pacientes. A UTI adulto concentrou a maior parte da demanda, com 7.290 procedimentos odontológicos.
Entre os procedimentos mais realizados estão terapias com laser de baixa intensidade – como fotobiomodulação e terapia fotodinâmica em lesões da cavidade bucal –, tratamentos periodontais básicos, adequação do meio bucal com remoção de biofilme, crostas e saburra lingual e exodontias em casos de infecção aguda ou mobilidade dentária.
O serviço também atua em enfermarias e outros setores do hospital, mediante solicitação médica, além de atender pacientes no ambulatório, como os que estão em pré-operatório de cirurgia bariátrica e na maternidade, realizando frenotomias em recém-nascidos com anquiloglossia (língua presa).
Esse trabalho é feito em parceria com o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH), responsável por monitorar riscos e garantir o cumprimento de protocolos de segurança. A enfermeira do SCIH, Rayanne Alves, explica que a prevenção de infecções exige vigilância constante e atuação multiprofissional.
“A equipe realiza auditorias de higienização das mãos, visitas técnicas para verificar a biossegurança, monitoramento de culturas do aspirado traqueal e vigilância da pneumonia associada à ventilação mecânica, além de promover educação permanente e acompanhar a adesão aos protocolos”, detalha.
Cuidado individualizado -Andreia Medeiros reforça que os cuidados com a saúde bucal devem ser individualizados, considerando a idade, condição clínica e necessidades de cada paciente. Desde o tipo de escova até a quantidade de creme dental e as técnicas de higienização variam conforme o perfil.
No ambiente hospitalar, esse cuidado ganha ainda mais relevância. “A odontologia está dentro da unidade para garantir o cuidado integral. Nós promovemos conforto, qualidade de vida, prevenimos infecções na boca e também sistêmicas, que podem aumentar o tempo de internação do paciente”, afirma.
Reconhecida pelo Conselho Federal de Odontologia desde 2015, a Odontologia Hospitalar vem se consolidando como uma aliada indispensável na segurança e qualidade de vida do paciente – e, como mostram os números do HSGER, pode ser determinante para salvar vidas.