Com aproximadamente um mês de idade, uma jovem gata-do-mato-pequeno-do-sul precisou enfrentar sozinha um desafio que, na natureza, costuma ser decisivo para a sobrevivência de qualquer animal silvestre: crescer sem a proteção da mãe. Encontrada em janeiro dentro de um galinheiro em Cajati, no Vale do Ribeira, a fêmea estava acompanhada da mãe quando um ataque de cães provocou a fuga da felina adulta. A filhote ficou para trás e foi resgatada e encaminhada ao Centro de Triagem e Recuperação de Animais Silvestres de Registro (Cetras-Registro), da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil).
Após quase seis meses de cuidados especializados, treinamento comportamental e acompanhamento constante, a pequena felina finalmente voltou à Mata Atlântica. A soltura foi realizada no Parque Estadual do Rio Turvo, em Cajati, sob gestão da Fundação Florestal, vinculada à Semil . Ao deixar a caixa de transporte e desaparecer entre a vegetação da floresta, a jovem gata-do-mato encerrou uma trajetória de reabilitação que mobilizou a equipe do Cetras-Registro desde os seus primeiros dias de vida.
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Logo após a chegada ao Cetras, a equipe técnica formada por biólogos e médicos-veterinários constatou que a filhote apresentava bom estado geral de saúde. Ainda assim, por conta da pouca idade, ela dependia de atenção permanente.

O maior desafio era garantir seu desenvolvimento sem a presença materna e, ao mesmo tempo, evitar a criação de vínculos com seres humanos. Nos primeiros meses, a alimentação era feita com mamadeiras oferecidas a cada duas horas, sempre seguindo protocolos que evitavam a associação entre pessoas e alimento.
Com o crescimento da filhote, os cuidados evoluíram. Presas abatidas passaram a fazer parte da rotina alimentar, utilizando roedores criados no próprio biotério do Cetras. Posteriormente, a jovem foi transferida para um recinto externo, com mais espaço, enriquecimento ambiental e estímulos voltados ao desenvolvimento dos comportamentos naturais da espécie.
Nessa etapa, foram introduzidas presas vivas, fundamentais para que o animal desenvolvesse habilidades de perseguição, emboscada e captura. Na natureza, pequenos roedores representam cerca de 80% da dieta do gato-do-mato-pequeno-do-sul.
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Durante todo o processo, o desenvolvimento físico e comportamental foi acompanhado por meio de câmeras, que registravam a rotina da felina sem interferir em seu comportamento. As imagens permitiram à equipe avaliar aspectos importantes para a soltura, como a capacidade de caça, o uso de abrigos naturais e a evitação do contato humano.
Para a chefe de departamento do Cetras-Registro, Hanna Sibuya Kokubun, cada reabilitação bem-sucedida representa uma vitória para a conservação da fauna paulista. “Ver esse animal retornando à natureza foi a recompensa de um trabalho que exigiu dedicação diária, conhecimento técnico e muito cuidado. Desde os primeiros dias de vida, nossa equipe trabalhou para que essa filhote tivesse a oportunidade de desenvolver os comportamentos necessários para sobreviver em ambiente natural. A soltura simboliza não apenas a recuperação de um indivíduo, mas também o fortalecimento dos esforços de conservação da fauna silvestre na Mata Atlântica”, afirma.
Segundo Larissa Calis e Wanderly Ferreira, biólogos responsáveis pelo acompanhamento do caso, a oferta de diferentes tipos de presas ao longo da reabilitação foi essencial para preparar o animal para a vida livre. A diversidade de estímulos ajuda a desenvolver estratégias variadas de caça e aumenta as chances de sobrevivência após a soltura.
A devolução da jovem felina à natureza também reforça o papel dos predadores nativos na manutenção do equilíbrio ecológico dos ecossistemas. Espécies como o gato-do-mato ajudam a controlar populações de pequenos vertebrados e contribuem para o funcionamento saudável das florestas.
O trabalho realizado pelo Cetras-Registro tem acumulado resultados importantes na recuperação de animais silvestres da região.
Em maio deste ano, uma preguiça voltou à natureza em uma área preservada do Parque Estadual Carlos Botelho após cerca de 60 dias de tratamento e reabilitação. O animal havia sido atropelado em uma rodovia e sofreu fraturas em duas das três garras do membro dianteiro esquerdo, que precisaram ser amputadas. Após um longo período de recuperação, a preguiça voltou a escalar árvores, se deslocar entre os galhos e se alimentar normalmente, demonstrando estar apta para retornar ao ambiente natural.
Outra história que em breve deverá ganhar um novo capítulo é a de uma jaguatirica que atualmente passa por processo de reabilitação no Cetras-Registro e também está sendo preparada para futura soltura.
Casos como esses demonstram a importância do trabalho desenvolvido pela unidade da Semil no Vale do Ribeira. Mais do que recuperar indivíduos feridos ou órfãos, o objetivo é devolver à natureza animais capazes de desempenhar novamente seu papel ecológico e contribuir para a conservação de um dos biomas mais ricos e ameaçados do planeta: a Mata Atlântica.
Desde sua inauguração, em agosto de 2024, o Cetras-Registro recebeu 1.876 animais silvestres. Nesse período, 479 indivíduos concluíram o processo de reabilitação. Entre eles, 62% puderam retornar à natureza, enquanto os demais foram destinados a empreendimentos devidamente autorizados, de acordo com as necessidades de cada caso.
Números que ajudam a traduzir a importância de histórias como a desta jovem felina que, ao deixar a caixa de transporte e desaparecer entre as árvores do Parque Estadual do Rio Turvo, voltou a ocupar seu lugar na floresta onde nasceu.
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